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O desastrado, louco e fantasioso
mundo da Tamara
bem vindo(a)!

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Tamara Lopes
Fantasia, sonhos, magia, sorrisos, união, felicidade, conquistas, amor, abraços, carinho, família, beijos, diversão, olhares, justiça, amizade, compaixão, música, vida, brincadeiras, suspiros, arte, imaginação, palavras et cetera.

       





E se a vida te desse uma segunda chance?
quarta-feira, 29 de outubro de 2014 // 12:48


Ele acordou com a claridade incessante das luzes que invadiam o ambiente. Precisou esfregar os olhos antes de tomar coragem para abri-los de uma só vez. Tudo bem, ele disse para si mesmo, pondo-se de pé.

Enfermeiros passavam pra lá e pra cá, e isso lhe causava certa vertigem. As lembranças do dia anterior, o pior de sua vida, ainda o assombravam. E ele sabia que teria de conviver com elas.

Seria tudo tão mais fácil se não tivesse acontecido aquela discussão patética, ela simplesmente não teria pegado o carro e não sofreria o acidente. Ah, se pudesse voltar no tempo... ele teria impedido, teria tentado acertar as coisas. Teria feito ela ficar em casa, junto dele, onde era o seu lugar. Onde sempre fora o seu lugar.

E agora ele estava ali, inconsolável, mas esperançoso. Tinha fé e acreditava que uma vida ainda poderia ser salva. Aflito, ele caminhava de um lado para o outro, e só parou quando ouviu alguns passos, dos quais já se familiarizara, ecoando no corredor. Se virou: era o médico. Seu coração disparou, temendo a notícia que poderia escutar.

Ele espiou o relógio de pulso, percebendo a rapidez em que os ponteiros se moviam. Antes de saber o que o médico tinha a dizer, ele precisava de... tempo. Fechou os olhos e, embalado pelos tic-tacs, começou a reviver uma das lembranças mais bonitas que guardava dela. Foi como se ele tivesse regressado no tempo... ela ainda estava ali.

- E por que você acha que eu ia querer morar com você? - ela perguntou com um tom desafiador na voz, embora, o sorriso transparecesse no canto da boca.

- Eu também não sei, não faço ideia. Você tem todos os motivos pra não querer, na verdade... eu ronco, falo palavrão, gosto de jogar vídeo game, não sou muito organizado com minhas coisas. É, definitivamente, eu não sou organizado...

Ele ficou pensativo por um tempo. Por mais que quisesse aquilo, mais que qualquer outra coisa, ela talvez merecesse muito mais pra vida dela. Ele não tinha muito a oferecer... e só o fato dela ser a namorada dele... uau, aquilo já era sensacional demais.

- Que bom que você sabe disso! Mas você esqueceu de mencionar que...

Droga, tem mais!, pensou.

- Que você é a melhor parte de mim.

O coração dele quase parou.

- Sei lá... - ela continuou - você não é organizado, não mesmo. Mas é disso que eu gosto, entende? Você apareceu e bagunçou minha vida, virou ela do avesso e me fez enxergar as coisas numa perspectiva diferente, ainda melhor! E eu quero a gente assim, exatamente desse jeitinho... vivendo felizes nessa bagunça só nossa. Quero cuidar e ser cuidada, quero ter uma família e envelhecer com você. E tem que ser você, porque eu te amo! E...

- E?

- E porque eu tô grávida... E o nosso bebê precisa do pai, ele precisa de você.

Ele a observava sem piscar os olhos. Queria poder dizer muitas coisas, talvez gritar pra esboçar o quanto estava emocionado, feliz e realizado, mas só conseguia sorrir. Sorrir e agradecer. Foi ali, naquele instante, que ele prometeu a ela que sempre seria o pai que aquela criança merecia, e ele cuidaria dela por toda vida, não importa o que acontecesse.

De repente, a lembrança se esvaiu.

O médico estava novamente à sua frente, com uma das sobrancelhas levantadas, esperando um sinal para começar a falar. Ele hesitou um pouco, mas conseguiu erguer a cabeça para encará-lo. De alguma forma, agora ele estava fortalecido e preparado para ouvir.

- E então, doutor?

O médico sorriu serenamente.

- Conseguimos salvar o bebê, ele está fora de risco. Me acompanhe, por favor, venha conhecer a sua filha.

Extasiado de felicidade, ele seguiu o médico. Afinal, tinha uma promessa a cumprir... Por ela, seria sempre por ela.


Nota: as histórias "About time" e "If I stay" me inspiraram muito para este texto e para diversos outros que eu vir a escrever, com certeza. Mas, mais que isso, me inspiraram para a vida. É uma questão muito pessoal, eu sei, mas se eu pudesse dar um conselho (não, não é "use filtro solar") - e você quisesse aceitar -, seria este: viva para os detalhes! O detalhe de um abraço, de um agradecimento, de um olhar, de um beijo, o detalhe de um jantar em família, de poder entrelaçar as mãos com alguém e trocar juras de amor, o detalhe de poder casar com esse alguém, constituir uma família, o detalhe de ser mãe, de ser pai, o detalhe de passar uma tarde conversando com os avós e vendo o quanto eles têm a ensinar, o detalhe de uma viagem ou de um simples passeio com os irmãos e os amigos, o detalhe de ficar menos tempo no trabalho e mais tempo ao lado dos pais... enfim, o tempo passa e tudo muda, e não há nada mais triste do que você olhar para trás e não conseguir se lembrar de nenhum detalhe da sua vida. Valorize-os!

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Festival das Cores dentro de mim
sábado, 25 de outubro de 2014 // 15:00



É dia de celebração! Mais do que dar boas vindas à primavera, eu dou boas vindas a mim mesma. À pessoa que me tornei ou, melhor ainda, resgatei. Dou boas vindas às oportunidades que eu tive, às mudanças de dentro para fora, às pessoas que conheci e acrescentaram, me transformaram. Dou boas vindas à vida!

É dia de celebração! De agradecer baixinho, de meditar, de voltar para mim mesma e reunir pensamentos bons, positividade e esperança. É tempo de não me intimidar, não me privar, não deixar para depois. É tempo de ser feliz e distribuir felicidade.

É dia de celebração! Vou fechar os olhos e sentir a liberdade percorrendo todo o meu corpo. Vou partilhar abraços, beijos, sorrisos. Vou partilhar gentilezas. Vou dançar no ritmo da vida, seguindo seus movimentos agitados e, ao mesmo tempo, suaves. Vou dar - e receber - aquilo que está contido nos detalhes de cada gesto, palavra e olhar, aquilo pelo qual vale a pena lutar: amor, sempre o amor.

Todos os dias são de celebração!


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O que cê ainda não sabe
segunda-feira, 8 de setembro de 2014 // 17:34


Ah, eu sei que a gente se entende num só olhar. Sei bem que cê já manja dos meus dias de bom humor e, principalmente, daqueles de mau humor. Sei que cê sabe quando deve se aproximar ou quando deve manter distância. Mas cê não dá a mínima e se aproxima assim mesmo, afinal... distância pra quê?

Eu sei que cê me conhece do avesso, e já sacou que esse é o meu lado certo. Cê gosta de mim com esse meu jeito meio torto, meio bagunçado... cê gosta até das minhas manias e dos meus trejeitos bizarros. Talvez, quem sabe, o avesso também seja seu lado certo.

Às vezes, parece que cê é capaz de ler meus pensamentos. Sei lá, não é como completar minhas falas nem fazer algo sem eu precisar dizer. É mais que isso. É, contraditoriamente, ficar em silêncio. Deixar transparecer aquele vestígio de sorriso no canto da sua boca, deixar que a intensidade do seu olhar, do seu toque e do seu beijo me digam, de alguma forma, que você está comigo... e que não pretende ir a lugar nenhum. 

Cê já me desvendou quase que por completo, mesmo com meus mistérios fracassados. Mas eu sei que tem coisas que cê ainda não sabe, como o fato de eu ansiar pelos clichês. O clichê das conchinhas, o clichê do domingo inteiro preguiçoso, o clichê de comer guloseimas e engordar só um pouquinho, o clichê das brincadeiras e gargalhadas de coisas bobas, o clichê da tortura de cócegas, o clichê da cochilada durante algum filme, o clichê de um "eu te amo" pronunciado sem mais nem menos.

Eu aposto que cê também não sabe o quanto eu acho o máximo fazer compras com você. Gosto da nossa indecisão maluca sobre o que fazer no almoço, sobre qual massa ou queijo levar, até desistir de tudo e comprar comida pronta e congelada. Gosto da sua preocupação em pegar o meu iogurte preferido. Gosto, com todo o meu coração, quando dançamos no meio do corredor com plateia e tudo. Cê não sabe, mas só de fechar os olhos e lembrar desses momentos, me faz desejar mais danças no supermercado ou em qualquer lugar. Porque por mais que haja alguns pisões no pé, eu sei que, enquanto você me guia, além dos passos, nossas vidas também estão sincronizadas. 

As pessoas falam tanto sobre o infinito, e cê não sabe (nem elas), mas o infinito é nosso abraço. É nossa mordiscada na ponta da orelha. É nossa troca de olhar que diz tudo. Infinito é ansiar pelos finais de semana ao seu lado, e é não desgrudar de você quando eles, finalmente, chegam. Infinito são nossas conversas sobre a vida, são nossos planos. Infinito é nossa chegada, é nossa despedida, é nosso beijo de "até logo", é a nossa saudade incessante. Cê não sabe, mas o infinito é a nossa singularidade, é a sua loucura junto com a minha, é o seu sorriso junto com o meu. É você junto comigo. Cê não sabe, mas o infinito somos nós.

Ah, e nós vamos casar e ser muito felizes. Mas isso... isso eu sei que cê já sabe.

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Figurante
segunda-feira, 4 de agosto de 2014 // 16:21


Sempre tive um quê de solidão. Não pelo fato disso ser inspirador, mas por receio, medo das expectativas. Então, por isso, prefiro - de vez em sempre - me recolher nos momentos de reflexão que antecedem o sono, nos devaneios durante uma conversa com o chefe sobre algo importante, nos flashes que mostram a minha vida inteira - fragmentada em segundos - debaixo de um banho quente. E fico assim, envolta num mundo só meu.

Caminho - ou pelo menos tento. O chão parece não me sustentar como deveria. Me desequilibro. Insisto um pouco mais e volto a caminhar. Não sei exatamente para onde vou, mas sei que tenho que seguir... em frente! É engraçado, ando como se estivesse reaprendendo a andar. Como se eu fosse um bebê indefeso, descobrindo os desafios que a caminhada oferece. E é assim, exatamente assim, que acontece em todos os momentos da minha vida.

Sou movida a emoções e o problema é que nem sempre elas são obedientes e estáveis como eu gostaria que fossem. E não culpo as pessoas, não culpo as situações, não culpo o mundo por isso. Toda essa vulnerabilidade é por minha causa. Sou assim, absorvo e observo a vida, meio que de soslaio. É como se ela fosse a protagonista e eu...

Eu sou só a figurante da minha própria existência.

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Horizonte
terça-feira, 29 de julho de 2014 // 13:38

No banco do parque eu recebo a tarde
Tenho ela ao lado, sem fazer alarde
Entre nós o trânsito de uma ponte
De mão única, rumo ao horizonte

E os seus olhos semicerrados, brilham sempre mais
Por detrás das lentes, tão transcendentais
Contemplando o nada num momento de torpor

Seu silêncio ecoa, um desabafo honesto
Separando o certo do que é só resto
A pura arte de quem sabe dominar a dor

De repente o parque se vê surpreendido
Com esse sorriso típico de bandido
Assaltando os corações repletos de rancor

Pode ser loucura, pode ser viagem
Pode ser que a história ande pela margem
Pela borda bamba, vai cair na fonte
Se banhando de luz e de horizonte




Eduardo Silva é um músico e jornalista de 23 anos, nascido na cidade de São Paulo. Começou a ensaiar os primeiros versos ainda criança, mas só há pouco tempo decidiu mostrar ao mundo o que pensa, acredita e desacredita através das palavras. Hoje, ele é baterista e compositor da Catarse, banda de rock paulistano.
Página da sua banda no Facebook: https://www.facebook.com/CatarseOficial?fref=ts

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Além de uma vida inteira
quarta-feira, 11 de junho de 2014 // 22:37


Ele a observava atentamente. Ela mexia a franja de forma frenética e engraçada. Os cabelos pretos e longos teimavam em cair sobre seus olhos e, embora ela estivesse um pouco emburrada, ele se divertia com a cena. E foi naquele momento, reparando a espontaneidade daqueles gestos, que ele teve certeza de ela era a garota mais linda que já vira em toda a vida.

O cabelo definitivamente não estava nos melhores dias, mas o nervosismo dela não era só por isso. Na verdade, não tinha nada a ver com isso. Ela simplesmente não sabia o que dizer. Ele, com aquele sorriso de lado e olhar semicerrado, conseguia deixá-la sem graça por uma vida inteira. Ela sorriu para si mesma, no íntimo de sua alma. É isso, pensou. Uma vida inteira não seria má ideia.

E foi nesse dia, depois de entrelaçarem as mãos e se comunicar por olhares efetuosos, que eles começaram a namorar. E namoraram todo instante, dia após dia. 

Namoraram enquanto ela caminhava, graciosamente, em direção a ele. As pessoas não a intimidavam. Ela só conseguia enxergar o longo tapete vermelho e, posicionado bem ao fim, lá estava ele com aquele sorriso que ela tanto gostava. Ela podia jurar que vira uma lágrima escorrer no canto do olho esquerdo dele. Ele ignorou os murmúrios, a música, todo e qualquer som, exceto o dos passos dela, que se aproximavam cada vez mais... e mais, e mais. Ela, dentro daquele vestido branco, era de uma doçura sem igual. Eles namoraram quando disseram "sim" um para o outro.

E namoraram nas dificuldades. Nas épocas em que as dívidas eram muitas e, sem dó, causavam desentendimentos e instabilidade entre os dois. Ela chorava baixinho para ele não escutar, ele fazia horas extras no trabalho para garantir dinheiro a mais (ou pelo menos um pouco dele)... mas, toda noite, eles se abraçavam com a certeza de que no dia seguinte tudo seria melhor.

Ela pegava as mãos dele e, cuidadosamente, as depositava em cima de sua barriga. E os dois partilhavam da mesma sensação incrível depois de sentirem os chutes. E eles namoraram em cada momento pleno desse. Também namoraram quando o bebê nasceu, e quando puderam segurá-lo pela primeira vez, e quando ele deu seus primeiros passos, e quando disse as primeiras palavras, e quando arranjou a primeira briga na escola, e até mesmo quando cresceu e saiu de casa.

Eles fizeram a viagem da qual sempre sonharam. Foram num bar, ficaram bêbados, dançaram em cima da mesa e foram expulsos pelo dono. Saíram de lá às gargalhadas como dois adolescentes irresponsáveis. Fizeram amor na praia e viram o amanhecer de lá mesmo, nus sobre a areia branca e densa. E mais uma vez ela se surpreendia com o sorriso dele e com cada linha de expressão do seu rosto, suaves e agressivas ao mesmo tempo. No sol, os olhos dela mudavam de cor... e observá-los era a coisa mais incrível e viciante. Para ele, ela era a certeza de que tudo valera a pena... e continuaria valendo. E eles namoraram mais uma vez.

Certo dia, sentados na cadeira de balanço, eles trocavam olhares carinhosos e sorrisos amenos, enquanto observavam o quintal abarrotado de árvores. Não precisavam dizer nada, assim como no primeiro encontro, pois sabiam que o mesmo filme passava em suas cabeças.

Era impressionante como ela ainda tinha as mesmas expressões. A franja, agora branca, ainda caía da mesma forma sobre seus olhos e, mesmo com o passar de todos esses anos, ele continuava tendo certeza de que ela ainda era a garota mais linda. Ela, um pouco tímida por ele observá-la como sempre fizera, via dentro daqueles olhos tomados de catarata o quanto ele a amava. E esperava que, de alguma forma, ele também soubesse da imensidão do amor dela. E eles namoraram.

Depois, suspiraram pesadamente. Fecharam os olhos e, em poucos segundos, eram jovens novamente. Ela olhou a si mesma impressionada com a juventude da qual nem se lembrava mais. Ele, também jovem, sorriu em sinal de aprovação. Então entrelaçaram as mãos e seguiram, felizes, na direção da eternidade. 

Porque eles namoraram além de uma vida inteira.

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Eu, você e a nossa música
quarta-feira, 28 de maio de 2014 // 17:45


Era uma noite fria, mas os braços dele me envolviam num abraço tão quente, que a brisa gelada se tornou suave e suportável. Eu não me importaria de ter abraços como aquele para me aquecer no lugar de cobertores... Na verdade, eu não me importaria de tê-lo para o resto da vida se eu pudesse sempre sentir esse calor que ele emana, que aquece não só o meu corpo, mas também a minha alma.

Nós fomos a um karaokê. E, por mais que eu tivesse achado isso uma péssima e apavorante ideia, gastamos mais dinheiro com aquilo do que com porções ou bebidas. Ele começou a escolher as músicas, e eu me divertia enquanto o observava treinando algumas letras. Quando ele finalmente subiu no palco e começou a cantar, todo seguro de si, fiquei em estado hipnótico. 

Sei lá, era como se tudo estivesse acontecendo em câmera lenta, talvez de propósito, só para eu poder registrar cada mínimo detalhe e me lembrar depois, mas ao mesmo tempo meus pensamentos eram acelerados e desordenados. Me perguntei se aquele momento realmente estava acontecendo ou se esvairia depois que eu me beliscasse. Eu não quis arriscar... 

Continuei estática, tentando evitar qualquer movimento como se uma piscada de olhos pudesse desfazer toda a cena. Mas agradecia baixinho, esperando que, de alguma forma, ele pudesse ouvir e saber o quanto eu era grata por estar absolutamente feliz, como há tempos não estava.

Foi ali mesmo, admirando ele cantando e dançando com tanta disposição e alegria, que eu comecei a divagar sobre nós. Desde o começo, ele deixou bem claro que queria alguém que o acompanhasse na vida. O problema é que ele chegou num momento que eu não queria ser a companhia de ninguém. 

Sabe, ele é o tipo de cara que gosta das coisas no lugar, que gosta da natureza, que gosta de sentar na areia e observar o mar, como se isso fizesse ele entrar em sintonia com o universo inteiro. Já eu... sempre fui dessas que bagunçam o quarto, o cabelo, as gavetas, a vida! Eu nunca consegui achar respostas em mim mesma, por mais que tentasse.

E eu juro que tentei avisar, tentei convencê-lo de que essa junção ia ser meio maluca, talvez turbulenta. Mas ele disse que comigo tudo era ainda mais claro, como se eu fosse a ponte para ele buscar - e achar - a paz interior. E acho que foi nesse momento que eu finalmente me encontrei, entendi que ele era a resposta de todas as minhas perguntas. E me permiti.

Com ele, todos os meus sentimentos são amplificados. Minha vontade de estar perto, minha saudade, meu amor... até mesmo as batidas do meu coração. Opa! Voltei à realidade, deixando os pensamentos de lado com medo dele ter escutado alguma coisa... mas ele continuava ali, sereno, sorrindo e cantando pra mim. Suspirei aliviada. 

Ele queria alguém que o acompanhasse na vida. Por isso, decidi começar ali mesmo... Tomei coragem, subi no palco e cantei com ele a nossa música.

"Tô com saudade de você debaixo do meu cobertor e te arrancar suspiros... fazer amor".

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Distância, boa e velha amiga
quinta-feira, 15 de maio de 2014 // 13:36


Meio incerto, meio indefinido. Foi assim que tudo começou entre eles e, ironicamente, é na instabilidade disso tudo que se encaixam tão bem. Eles não têm dia exato para se ver, não têm muitos planos nem programas agendados... eles só têm a distância como algo extremamente certo em suas vidas.

E quando ela fica entre os dois, a impaciência, o ciúmes (que eles relutam mas não admitem) e a saudade intensa vem de carona. Sem muito sucesso, eles até que tentam arrumar algum jeito de lidar com tudo isso. Costumam atribuir a culpa dos desentendimentos à incompatibilidade amorosa dos seus signos, não que eles liguem muito para combinações astrológicas, mas acham uma certa graça nisso.

Eles se falam da forma que podem, compartilham acontecimentos sobre o dia, palavras carinhosas e - às vezes - algumas discussões bobas também, que diante de tanta saudade não fazem sentido algum. Mas, de alguma forma, isso torna tudo mais real... e essa é a intenção, dispensar os empecilhos, enganar a distância, até finalmente poderem estar juntos, de fato.

E quando isso acontece, a felicidade plena que sentem resulta nas cócegas incessantes que ele faz nela, no carinho delicado que ela dá na ponta da orelha dele, nos abraços intensos, nos beijos demorados e na troca de olhares que diz tudo. Eles se sintonizam. Se entendem simples e inteiramente. Para ela, não há nada melhor do que poder compartilhar o que sente com ele. E ele retribuí, sendo sincero, inteiro, dividindo seus medos, sonhos e segredos mais íntimos.

E mesmo que o tempo passe absurdamente rápido, mesmo que a distância - intrusa e ligeira que só ela - aja ativamente em suas vidas, eles decidiram considerá-la como uma boa e velha amiga, afinal de contas, foi ela quem os uniu. Graças a ela, eles sentem preocupação, carinho, admiração demasiada, vontade desesperadora de estar perto... e amor absoluto um pelo outro.

E no meio de todas as inconstâncias e vaguidões da distância, não há nada, absolutamente nada, mais certo do que eles. 

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Um texto sobre as mães
domingo, 11 de maio de 2014 // 14:44


Eu acho que as mães deveriam ser eternas. Acho que elas tinham que durar pra sempre junto às preocupações, cuidados exagerados, mimos e abraços quentes e reconfortantes. Porque (de verdade?) mãe é uma espécie de super-heroína-foda-pra-caralho que sabe sempre o que fazer e como agir no momento certo. Isso porque ela tenta, ela arrisca, ela se coloca na frente de qualquer obstáculo só para proteger e cuidar de você.      

E ela sempre vai sentir como você está, sem bola de cristal nem nada. Mães simplesmente sabem, elas têm um sexto sentido maluco e assustador. Fora o detector de mentiras infalível, por mais que você insista na mentira, sua mãe já sabe a verdade. E, não adianta, ela vai querer te ouvir desabafar ou vai respeitar quando ver que você quer recolhimento, silêncio... mas ela também quebra as regras muito bem e não respeita porcaria nenhuma, porque sabe que você precisa do apoio, da força e do colo dela.

Mães são a nossa ligação mais forte, são parte da gente, são o que temos de mais sólido, e é por isso que eu acho que elas deveriam ser eternas. Embora, de alguma forma, mãe já se eterniza nos sermões, nas crises de histeria, nas letras de músicas que canta bizarramente errado, na mania irritante e constrangedora de comentar nas suas postagens, no drama exagerado pra cassete, nas broncas pela bagunça do quarto, por guardar roupas sujas, por deixar meias jogadas, na implicância com alguns amigos e as bandas que você curte, nos apelidos toscos que ela te chama desde quando você era criança e nas discussões por você não ajudar nas tarefas básicas de casa como lavar a louça.

Ela se eterniza na preocupação agonizante que fica enquanto você não chega em casa depois de ter passado a noite fora, no ato de te cobrir depois de ter jogado todo o edredom pra fora da cama, em acompanhar você ao médico e fazer um puta questionário ao doutor sobre o que você pode ter mesmo que ele já tenha falado que é só um resfriado passageiro, em fazer sua comida favorita só para te ver contente, em te ligar de hora em hora para saber onde e com quem você está, em ter algumas dívidas mas comprar aquilo que você mais precisa ou só aquilo que você mais quer para poder te agradar, para poder ver você feliz.

Mães, sei lá, são nosso mundo inteiro, são nossa vida. Mãe é base, é nosso espelho, mãe é o inteiro do pedacinho que nós somos. Mãe é simples e inteiramente a representação mais pura e bonita que podiam dar ao amor.

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O que nós, homens, queríamos que vocês, mulheres, soubessem
terça-feira, 15 de abril de 2014 // 22:37


As mulheres têm sérios problemas com sinceridade. Elas não são sinceras umas com as outras, mentem sobre a aparência da amiga, invejam o cabelo, o corpo bacana... elas não são sinceras nem com elas mesmas e ainda assim cobram isso dos homens! Mas o problema é que nós falamos, expressamos o que sentimos... não temos tempo para drama e cu doce. Então, se vocês querem saber umas verdades, lá vai uma lista de coisas que gostaríamos MUITO que vocês soubessem:

1- Usem rabo de cavalo! Sério. Além de deixá-las mais sexy, nós gostamos de nos imaginar puxando o cabelo de vocês. Que foi? Eu avisei que isso aqui era para falar umas verdades...

2- Fumar não é legal. Não. Não. E não! Vocês ficam com um bafo do caralho e não é gostoso beijar mulher que a boca mais parece um cinzeiro, fora a porra dos dentes amarelos. 

3- Todas as relações sexuais seriam infinitamente melhores se vocês se empenhassem mais no amigo aqui embaixo. Não queremos dez segundos, porra! No mínimo - m-i-n-í-m-o - uns dez minutos.

4- Homens veem pornô. Todos. E isso não é canalhice nem traição, cassete. É só um forma de relaxamento, de tirar o tédio. Mas eu aconselho vocês a ficarem os dez minutos ali, empenhadas no amigão, ou então vamos preferir mesmo os vídeos.

5- Nós prezamos muito os amigos! Somos palhaços, falamos merda e até fazemos brincadeiras homossexuais (isso é tosco, mas a gente faz porque irmão é irmão e que se foda). E nem tudo é putaria como vocês imaginam, nós também falamos sobre coisas sérias, além de mulher, banda e futebol. 

6- Não usem maquiagem. Pelo menos não sempre. Vocês são ainda mais lindas com a beleza natural, juro que são! E deixem o cabelo bagunçado, deixem os pés descalços, usem roupas básicas, usem até nossas camisetas velhas e largas. 

7- Adoramos mulheres cheirosas e femininas! Só não curtimos muito batom, não. Também não gostamos quando vocês falam palavrão sem parar. Sei lá, de vez em quando, tudo bem, mas mulher boca suja... pooooorra!

8- Usem óculos, por favor! Nem que seja de descanso. Vocês parecem mais intelectuais e infinitamente mais interessantes. E gostem de ler, gostem de assistir filmes, gostem de animais e crianças, gostem de coisas naturebas mas gostem também de massas e molhos para podermos levá-las para jantar e arriscar até comer com as mãos. 

9- Saibam falar bem. Mulher que fala errado é feio pra cassete. E, melhor, saibam também escrever bem, expressar as ideias. Estudem para dominar qualquer assunto sobre qualquer coisa só para ter o que discutir numa conversa. Nós adoramos quando vocês falam com tanta convicção sobre algo.

10- Pintem as unhas, façam as sobrancelhas, se depilem! Nós reparamos em tudo, tudo mesmo. E se dizemos que não nos importamos, porra, é porque é mentira e não queremos dizer na cara algo que vocês já deviam ter noção. Mas com as celulites, relaxa, nós não estamos interessados no buraquinho imperceptível da sua bunda... nós estamos interessados na sua bunda!

11- Vocês não precisam ser saradas, tipo absurdamente saradas. Sério, uma minoria de caras curte mulheres assim. Mas a maioria, acreditem, gosta de um corpo legal sem exageros, com gordurinhas. 

12- Gostamos quando vocês sussurram no ouvido. Puta que pariu, como gostamos! E aí vocês mordiscam nossas orelhas e descem pelo pescoço... e os pelos se arrepiam e... caralho! Quando vemos já estamos te imaginando de várias formas possíveis.

13- Nós não gostamos dessa porra toda de que homem tem que pagar o caralho a quatro. Se fazemos isso é por questão de cavalheirismo, de querer impressionar... não porque somos obrigados. Aliás, é muito bacana quando vocês também oferecem pra pagar alguma coisa, qualquer coisinha.

14- Nós somos bobões, chorões... e realmente curtimos às vezes - à-s v-e-z-e-s - os filmes de romance/comédia romântica que vocês assistem. Mas nós não entendemos a compulsividade por choro, de achar uma história completamente linda e perfeita quando sabemos que é impossível ser assim. Então, a gente gostaria muito que vocês fossem só um pouco mais realistas.

15- Olhamos para bundas. Sim, olhamos. Olhamos para peitos. É, também. Olhamos para tudo o que chama atenção. E vocês também precisam entender que vamos sempre olhar simplesmente porque é bonito de se observar. Não somos malucos tarados por isso.

16- Nós também nos apaixonamos, ficamos com cara de bobão, escutamos músicas sem parar, viajamos nos pensamentos. Quando não queremos, nem insistimos. Mas se estamos nos preocupando, indo atrás... é porque realmente gostamos de você. Dê um voto de confiança.

17- Nós temos amigas também. Já ficamos com umas, já comemos outras (ou pelo menos já desejamos muito isso)... mas hoje elas são só parceiras, irmãs, sei lá. O fato é que quando estamos mesmo apaixonados, vocês não precisam vê-las como ameaça, até porque antes de qualquer coisa queremos que vocês sejam nossas amigas, confidentes e companheiras.

18- Sentimos ciúmes, sim. Queremos que vocês tenham suas opiniões, mas queremos que tenham noção do que dá para ser evitado. Tipo dar corda para aquele seu colega mal intencionado. Homem sabe reconhecer filho da puta de longe... e seu colega é um deles!

19- Também somos carentes de atenção. E, na maioria das vezes, quando dizemos "pode sair, vai lá, se diverte", estamos querendo dizer "abre mão disso pra ficar comigo, vai?". Nós nos importamos com o que vocês pensam, com o que vocês fazem... e não há sensação melhor do que ver que vocês nos priorizam de vez em quando.

20- Vocês ficam putas da vida com a gente por esquecer toalha molhada em cima da cama ou a tampa da privada levantada, e nós ficamos putos da vida com vocês por darem tanta importância a isso! Caralho... já parou para pensar que também temos trabalho para levantar a porra da tampa toda vez que vamos mijar?!

21- Não somos perfeitos! Parem de esperar por príncipes encantados, parem de depositar suas frustrações em nós, parem de nos cobrar, parem de desconsiderar os acertos para apontar só os erros. Aceitem que temos defeitos, aceitem nossas caras e bocas, nossas piadas manjadas, o ciúmes bobo e as manias irritantes. Aceitem... e nos queiram assim mesmo.

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Então fica...
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014 // 23:14


Fica mais um pouco, e vai ficando. Se acomoda. Afrouxa a camisa, descalça os sapatos. Não precisa ter pressa, não. Eu tenho preparado a minha vida há algum tempo pra você se sentir a vontade, pra te receber da forma como merece.

Por isso, deita aqui. Vem bagunçar os lençóis como você tem bagunçado minha vida. E não se preocupa em arrumar depois. Gosto das coisas aos avessos, que é pra eu poder sentir o gostinho do imprevisível. E descobrir novas possibilidades, sabores, aventuras... e descobrir você. Saber ler e interpretar seus gestos, te desvendar aos pouquinhos, que é pra não perder a graça.

Pode fazer a cara de sério quantas vezes quiser, pode apertar os olhos e olhar fixamente daquele jeito que você tem costume, como se vasculhasse minha alma, como se enxergasse meus segredos e anseios. Além de ficar mais bonito assim, eu sei que isso faz parte dos seus jogos... e eu quero jogá-los também. 

Quero sentir sua respiração falha e descompassada no meu ouvido, sentir sua barba por fazer roçando meu pescoço e sentir seu coração batendo acelerado contra o peito. E quero que você sinta meu toque nas suas costas, minhas unhas arranhando de leve seu corpo e minha boca percorrendo cada parte de você. Eu quero jogar, mas quero um a um.

E não repara a minha inquietude, nem esse meu jeito bobo e a mania de falar o tempo inteiro sobre o sentido das coisas. É que com você eu acabo divagando e enxergando beleza nos detalhes. Nos detalhes da sua boca, dos seus olhos, das suas mãos... do som da sua voz e do sotaque que tanto gosto. 

Minha vida é uma montanha-russa desregulada, e embarcar nela é um verdadeiro risco... mas eu não deixaria você se machucar. Eu também não tenho muito o que oferecer, mas o que tenho, ofereço inteiramente... só porque com você é tudo diferente. Você é dessas coisas que passam pela vida da gente causando rebuliço, deixando marcas e inspirando. E é por isso que eu não me importo se você quiser ficar mais um pouco.

Então vem, pode vir.

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Atraso
// 15:49


Ela gostava de se atrasar. Era daquelas mulheres dos "cinco minutinhos", que na verdade eram quarenta, cinquenta, uma hora. Mas não tinha como ficar bravo com aquilo. Ela era linda e observar o motivo do atraso era hipnótico. Ela calçava e descalçava uns três pares de sapato e sempre voltava a calçar o primeiro. Ela prendia o cabelo num rabo de cavalo, desistia, deixava ele solto e bagunçado, pra depois decidir colocar uma tiara. Ela passava batom se olhando no espelho, jogando beijos para ela mesma. E ela pintava os olhos com a delicadeza de um artista pintando uma tela. 

E aí, finalmente, ela se virava e me encarava, levantava uma das sobrancelhas, ansiosa e cheia de expectativa, esperando pela minha aprovação. Eu não conseguia expressar reação alguma, porque... uau! Eu estava em transe, estava fascinado e perdido naquela visão. Meu íntimo gritava por dentro, agradecia aos céus por tê-la comigo e eu fazia promessas a mim mesmo de que nunca a desapontaria, porque eu sempre soube que aquilo só acontecia uma vez na vida de um homem. E aquilo era amor, hein? Ah, se era... 

Enquanto eu divagava, pensando no quanto ela era fascinante e no quanto meus sentimentos eram intensos, ela me observava furiosa. Fazia biquinho e enrugava a testa, como se minha falta de reação fosse um mau sinal. E para reparar o erro, eu atropelava as palavras e soltava elogios atrás do outro, tentando convencê-la de que ela era a mulher mais linda. E, só depois de um tempo - porque ela era teimosa, viu amigo? - ela sorria um sorriso vitorioso, como se tivesse ganhado uma partida do seu próprio jogo de charme. 

E os abraços apertados começavam, depois ela partia para as mordiscadas no pescoço e na ponta da orelha... e depois as mãos bobas. E ela era incrível e suave até nisso. Quando percebíamos já estávamos nos entregando um ao outro da forma mais intensa. E eu já não me importava com atraso nenhum, poderia atrasar todos os compromissos da minha vida só para ter momentos como aquele. Só para senti-la, tocar sua pele, apertar sua cintura para mais perto de mim, beijar seus ombros, sentir sua respiração falha e descompassada... meu Deus, aquilo era amor. Amor mesmo. Desses únicos, raros, explosivos. 

E eu entendi que também estava atrasado... por não deixá-la saber disso, do quanto a amava. Estava atrasado em ajoelhar aos seus pés, nem que fosse ali mesmo, para entregar o anel mais bonito que ela merecia. Queria que ela soubesse que era ela, sempre seria. Que eu cuidaria dela por toda a eternidade e além disso. Que não me importaria de parar com a droga da mania de deixar as roupas bagunçadas e a toalha molhada em cima da cama, também não ligaria de abaixar a tampa do vaso sanitário.

Eu a levaria para dançar, me esforçaria para não pisar nos pés dela e até arriscaria girá-la. Eu não olharia para mais ninguém, a não ser ela... Eu prepararia jantares românticos, a levaria todas as semanas ao cinema, só para ver aquela cara de ansiedade e depois ouvi-la falar sem parar sobre o filme. E eu sorriria como se aquilo fosse a coisa mais interessante, e, na verdade, seria mesmo... porque tudo o que ela falava era interessante. 

Eu queria que ela soubesse disso tudo, daria a minha vida só pra isso... Mas fico aqui, mergulhado nas lembranças, pensando que agora podia ser um dos típicos dias de atraso dela. Ela podia estar muito bem hidratando a pele, vestindo uma lingerie, calçando o salto alto, colocando os brincos, mexendo no cabelo de modo que a nuca lisa e clara ficasse exposta... Mas eu sei que essa cena é só mais uma nostalgia minha, sei que ela não vai aparecer, que não vai me olhar com aquele olhar de quem espera por uma aprovação, sei que não faremos amor mais tarde, nem que vamos planejar nosso futuro, dando nomes estranhos aos nossos filhos... Eu sei, porque foi da maneira mais imprevisível que um dia - desses, que só aparentemente são rotineiros como qualquer outro - a vida decidiu tirá-la de mim. E ela partiu, levando consigo todos os meus sonhos não realizados, minhas promessas não cumpridas e as palavras não ditas... como aquele meu "eu te amo", que sempre ficou engasgado em mim.

E o verdadeiro atraso nunca foi dela... 

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Fotografia
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014 // 23:33


O tempo era ligeiro e impiedoso, passava absurdamente rápido... Era como se  uma ampulheta desordenada controlasse cada instante, bagunçando e acelerando os minutos e segundos. E foi por isso que eu decidi aproveitar cada momento para fotografar você. Seus olhos, sua boca e o sorriso espontâneo de menino aprontão.

Mas eu não queria nem podia entregar o jogo! Então fui discreta e usei dos seus momentos de distração para registrar tudo. Enquanto você falava sem parar, narrando sobre a vida, as pessoas, as frustrações e os sonhos, eu aproveitava para percorrer meus olhos por cada parte sua, desde as linhas de expressão que surgem na sua testa quando você faz careta e a forma como levanta apenas uma única sobrancelha com um ar de mistério, até a sua maneira de gesticular durante qualquer conversa.

E sem você perceber, eu acionava o meu modo de disparo contínuo e te capturava uma, duas, três vezes. Até mais, muito mais. Assim, eu podia montar um álbum das suas caras e bocas em minha mente, junto com as lembranças do seu toque, carinho, risada, palavras bonitas e até dos palavrões atrevidos.

Foi inevitável não pensar em destino. Perguntei a mim mesma, baixinho, no íntimo da minha alma - e ainda assim com medo de você escutar -, se aquilo realmente estava acontecendo comigo, porque era a coisa mais incrível. Era sentir o gosto da aventura, do imprevisível, do risco, da libertação. Era me sentir viva! E todos esses questionamentos se esvaíam a cada vez que você se aproximava, encostando sua pele na minha... E nada mais importava, a não ser aquele instante.

E é por isso que eu te fotografo, te clico e te guardo. Porque não importa se o tempo vai se esgotar... a ampulheta pode ser virada a qualquer momento, e tudo se renova, tudo se recomeça. Sorrisos, abraços, beijos, mordidas, olhares... momentos. 

E a verdade é que você sempre será a fotografia do meu momento mais feliz. 

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Acordei
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014 // 19:14


Hoje eu acordei com vontade de viver. É, cara, sabe viver pra caralho?! Fazer uma tattoo ou mandar ver logo duas ou três de uma vez. De beber e rir de tudo. Rir dos acasos, das coincidências malucas e até das tragédias que vão render boas histórias depois.

Acordei não me importando tanto com o trabalho. Com coragem de mandar o vizinho filho da puta tomar no cu. Acordei querendo beijar aquela garota que conheci na praia, dizer que ela é linda sem me importar com compromisso. Acordei querendo andar, traçando caminhos alternativos e não a reta previsível que sempre segui. Acordei com vontade de tirar fotos. De mim, das pessoas, do céu, dos cachorros. Da beleza do mundo! Acordei com vontade de amar, pura e intensamente. Acordei com vontade de presenciar um milagre, de ser um milagre. 

Acordei querendo experimentar. Ouvir e tocar um estilo de música diferente. Ousar no corte de cabelo e que se foda a opinião alheia. Comer qualquer gororoba oriental e tentar entender por que as pessoas gostam tanto daquilo. Acordei querendo ser poeta, escrever sobre as coisas e o sentido delas, nos mínimos detalhes, mesmo não fazendo ideia de porra nenhuma. Acordei querendo ser rapper, soltar o verbo e criticar a desigualdade social.

Acordei com vontade de ser ator. De encenar, de criar personagens, de ser mil em um.  Acordei querendo ser um astro de rock'n roll, curtir um bom som, as noites e as mulheres. Mas também acordei com vontade de ser pai, constituir uma família. Quem sabe com a garota da praia. Ou com aquela do décimo primeiro andar do meu prédio, que já deu mole e todo o resto pra mim...

Acordei querendo observar o mar... e mergulhar nele! Nadar, nadar, nadar e não chegar em lugar nenhum, mas saber que sou parte de uma imensidão divina. Acordei querendo a paz, a bagunça, o correto e o errado. Acordei querendo mudanças, reinvenções, continuidade das coisas boas. Acordei querendo ser contradição, ser do avesso, porque esse é o meu lado certo. Acordei querendo ser eu mesmo. Acordei, simples e inteiramente, para a vida!

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Um texto sobre a vida
terça-feira, 31 de dezembro de 2013 // 11:24


Viver é não levar a vida tão a sério, embora seja ter responsabilidade para lidar com ela e as consequências dos seus atos. Viver é não fazer promessas, nem planejar muito. Viver é se entregar de corpo e alma. Viver é não se esquecer do real valor das coisas...


Viver é bagunçar, é se divertir, é quebrar a cara, quebrar mais uma vez e quebrar novamente... até aprender. Viver é passar por problemas, enfrentar dificuldades que você mesmo não sabia que era capaz de vencê-las antes de tentar com afinco. Viver é levar um pé na bunda, mas dar outro no dia seguinte. Viver é ter que pedir uma grana emprestada... e não ter dinheiro para devolver. Viver é se matar de estudar para passar com nota mínima naquela prova que te fodeu, mas antes você assiste uma série, fica um pouco na internet... Qual o problema? Viver é chorar a perda de alguém, mas saber que ela sempre estará em seu coração. Viver é pecar na gula de vez em quando, é comer uma caixa inteira de chocolate e não se preocupar com a droga da dieta. Viver é ter um bichinho de estimação, é ser o dono que ele merece e ganhar lealdade em troca. Viver é andar de bicicleta, de skate... e tomar um rola bonito, que vai te deixar cicatriz. Viver é brincar com crianças e ser uma junto com elas. Viver é ouvir aquela música e lembrar daquela pessoa especial. Viver é ter paciência para tirar um tempo e conversar com seus avós, escutar suas histórias e ouvi-los dizer que tudo no tempo deles era melhor. Viver é pensar em ter uma banda... e, de fato, ter uma banda! Viver é ficar horas e horas debaixo do chuveiro e não se preocupar com desperdício nenhum. Viver também é ficar um dia sem tomar banho por preguiça. Viver é discutir com sua mãe, se irritar com seu jeito controlador e maluco, mas não se imaginar sem ela por perto. Viver é ter irmãos para brigar, jogar a culpa neles, quebrar os brinquedos e usar as roupas emprestadas, mas também é acobertar uns aos outros.

Viver é ter um ídolo e fazer de tudo para conhecê-lo. Viver é ter um hobby qualquer, nem que seja só dormir. Viver é sofrer a decepção de um relacionamento, mas é também entender que o verdadeiro amor não causa dor. Viver é sorrir junto com alguém, é conseguir enxergar vocês em todas as situações, é dar e receber carinho, é ficar com cara de idiota sonhador enquanto observa a outra pessoa, é fazer cócegas, é morder, beijar, abraçar, é deitar sobre ela, findar o amor, é não ligar para tabus, é ter certeza de que ela é a pessoa certa... viver é se casar e fazer filhos com ela. Viver é ter que trabalhar no plantão na porra do feriado. É perder um momento importante por excesso de tarefas, mas é também jogar as obrigações para o alto e que se foda todo mundo! Viver é tomar um porre com os parceiros sem ter noção do quanto estava bêbado até seu amigo contar que você fez Strip-tease e vomitou por todos os lados. Viver é se decepcionar com algumas pessoas, mas é se surpreender com outras. Viver é ter filhos, é ficar desesperado com as contas no final do mês, é se estressar com a rebeldia deles, é tomar suas dores e defendê-los com unhas e dentes... viver é enxergar você mesmo neles. Viver é ter o primeiro cabelo branco. Viver é sorrir e avistar a primeira ruga. Viver é ter o primeiro neto. Viver é fechar os olhos, se lembrar da sua infância e do quanto você aprontava. Viver é rir sozinho, é gargalhar com toda a sua vontade. Viver é rezar e agradecer sempre. Viver é saber pedir perdão. Viver é amar demasiadamente para ser amado de volta. Viver é saber que a vida um dia acaba e, por isso, viver é simplesmente ser você mesmo, ser sincero, ser intenso, ser inteiro!

Viver é olhar para trás e não enxergar lacunas. É ver que sua existência não foi vazia, que você soube aproveitar cada instante. Viver é saber que, assim como qualquer pessoa, você teve seus momentos bons e ruins, e ainda assim foi muito feliz. Viver é escrever a sua história... é eternizar a sua vida.

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Não um trote qualquer...
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013 // 09:51


- Alô?

- Ei... 

- ... Quem fala?

- Um cara muito, muito mesmo perdido...

- Isso é algum trote? Desculpa, mas se você não ligou na intenção de falar com alguém, então acho melhor eu desligar. Sabe, não dá pra perder tempo...

- Não! Espera, por favor? Eu só quero conversar e preciso que alguém me escute de verdade. E não precisa dizer nada, sério. Se você achar que cada segundo na linha esteja desperdiçando o seu tempo, então tudo bem, você pode desligar na minha cara.

- Só pode ser brincadeira... Tá, pode falar... eu vou te escutar.

- Obrigado... de verdade... Sabe, eu sempre fui perdido num mundo só meu... e esse foi o problema. Ela costumava dizer que eu mantinha a porta da minha vida fechada, trancada com correntes e cadeados, tão resistentes que impediam qualquer um de bisbilhotar. E ela se chateava porque dizia que não era qualquer uma e que merecia ter a chave dessa porta, pra abrir, entrar e ficar... Talvez ela não quisesse as flores que eu mandei, nem os bilhetes estúpidos com pedidos esfarrapados de desculpas. Talvez ela não quisesse ausências, justificativas, olhares arrependidos e palavras vazias. E eu fui burro pra caralho por perceber isso só depois. Mas ela tem razão, ela sempre teve razão...

Na verdade, talvez esse tempo todo ela só quisesse ver o que tinha por trás do cara cauteloso, com cartões e cigarros espalhados por todos os bolsos da calça e da camisa. Talvez ela quisesse saber o que meu penteado bagunçado ou o olhar disperso escondiam. Talvez quisesse desvendar o meu tique nervoso, descobrir por que minhas pernas se balançam por tantas vezes seguidas sem parar. Talvez quisesse que eu explicasse sobre aquele tal assunto do trabalho que eu fiz questão de dizer na cara dela que era coisa chata pra cassete e que por isso ela não entenderia.

Era pra eu ter puxado o cabelo dela, mostrando o quanto eu a queria. Eu devia ter beijado primeiro as orelhas, descido pelo pescoço, mordiscado os lábios e arriscado as mãos bobas. Devia era tê-la colocado em cima da mesa, ter apertado as pernas dela em volta de mim, devia tê-la feito sentir desejo extasiante, ter findado nosso amor com marcas de arranhões, palavras atrevidas, lençóis amassados e molhados de suor.

Talvez devesse ter sido alguém que, desde o começo, ela sempre mereceu e não um completo filho da puta. Acho que, sei lá, meu maior medo era de não ser bom o suficiente pra alguém que é infinitamente melhor que eu.... Mas agora eu tirei as tais correntes e os cadeados e a porta está aberta, escancarada, só esperando ela entrar... para permanecer, e isso é definitivo. Quero mostrar o que tem por trás desse cara inseguro e vulnerável, que veste tantas armaduras fajutas. Quero que ela saiba que eu a amo e que desejo, mais que qualquer outra coisa, dividir minha vida com ela.

- É isso?

- É... é sim... Pensei que desligaria na minha cara.

- Eu também pensei, mas... desisti. Foi bom te escutar. Só me pergunto por que você ainda não a procurou para dizer todas essas coisas pessoalmente a ela?

- É o que eu estou tentando fazer. Agora que decidi abrir a porta da minha vida pra ela entrar, estou aqui fora esperando ela abrir a da casa dela pra eu fazer isso... Você abre, amor?

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Perigo, não se aproxime
quarta-feira, 6 de novembro de 2013 // 18:47


Você não vai querer se aproximar. Eu sou como uma partida de campo minado - impossível de vencer. Minha vida é uma explosão, uma bomba-relógio. Instável. Sou acionada para detonação... Então, se você se aproximar, vai sair deteriorado, arrasado, machucado.

Sou contradição, sou mistério que não se finda. Sou história sem início, meio e fim. Sou bagunça, sou fora do contexto. Minha mente é um filme de ficção-romance-aventura-comédia-ação-terror. Principalmente terror... dos bons! Todas as pessoas que tiveram a oportunidade de assistir à minha vida, da primeira fileira, se assustaram, pularam fora... e não retornaram. 

Eu não sou fácil de lidar. Não sou auto-explicativa, meu sorriso não tem significado positivo e minha testa franzida pode ter milhares de denotações. Não gosto de coisas vazias, nem pela metade... gosto delas transbordando. Vivo no meu mundo-particular-da-lua que é só meu. Não compartilho meus segredos. Não sou nada racional, mas sou uma boa fingidora. E, às vezes - só às vezes -, consigo fingir que não sou guiada pelas emoções do meu íntimo. 

Não sou forte, mas tenho um potencial muito grande em ser atriz. Atuo, brinco, me esbanjo interpretando os meus diversos personagens pateticamente criados. A maioria das facetas, muito bem lapidadas, apresenta uma pessoa normal, ligada no automático, clichê, passiva... que vive nesse mundinho-de-merda-ilusório. 

Eu sou um poço de ideias desalinhadas. Busco por tudo aquilo que está oculto. Me faço de detetive e, mesmo ralé, mesmo sem sair do lugar e não descobrir nada, eu me divirto com as minhas próprias fantasias e charadas indecifráveis. Eu sou como tesouro perdido... nunca me acho, nunca me situo, sou dispersa, mas de precioso e atrativo não tenho nada. 

De-vez-em-sempre sou filósofa, daquelas que sem precisar fumar, beber e devorar páginas e mais páginas de livros, têm pensamentos que divagam por mundos distantes e malucos. Minhas melhores ideias surgem quando estou acompanhada do vazio. Silêncio. Ausência. Nada. Converso comigo mesma, escrevo, canto baixinho, sussurro... Me preencho e me completo nessa vaguidão singular.

Eu queria ter avisos convincentes espalhados por mim, sinalizando todos os perigos que ofereço. Afinal de contas, sou uma bomba-relógio... E sempre que alguém se aproxima, sou eu quem explode, quem sofre, quem sente a dor de dentro para fora. Sou eu quem desfalece.

Perigo, não se aproxime... muito menos se apaixone.

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Um texto sobre a felicidade
segunda-feira, 4 de novembro de 2013 // 18:57


Tudo passa, tudo sempre vai passar. Cada dia, minuto, segundo... cada momento. A paixão platônica que te tornava tão patético, a dor de um pé na bunda, a frustração de não ter conseguido, por pouco, muito pouco, aquela coisa que tanto significava pra você... os traumas, os fantasmas do passado, o sofrimento de uma perda. Isso vai passar, dependendo, é claro, das escolhas que você fizer, do que você julgar importante para a sua vida... Então, parceiro, essa é deixa para você entrar em cena e simplesmente ser feliz.

Você não vai conseguir reverter os fatos, dar uma rebobinadinha na sua vida e, plim!, mudar os rumos e fazer tudo diferente. Você também não vai conseguir pausar e ficar estacionado o resto da sua existência naquele mesmo momento. A vida acontece, amigo, e você tem que acontecer junto com ela. Por isso, não perca tempo se culpando, lamentando e acumulando arrependimentos. Não vale a pena se martirizar dia após dia. Chore, extravase quando preciso, mas não muito. A maioria das suas dores sempre é por motivos e pessoas que não merecem nem metade de cada lágrima que você derramou.

Dar a volta por cima, tirar de cada situação um aprendizado e agregar sempre, sempre mesmo novas experiências, sabores e amores, é o caminho mais curto para a felicidade. E ela não está no outro. Nunca. As pessoas têm uma mania patética e dramática de acharem que dependem de um outro alguém. Mas, na verdade, isso é uma forma de escape. A maneira mais apropriada – e covarde – de transferir, para outra pessoa, uma parcela da sua própria falta de determinação em ser feliz. Isso só depende de você, está em suas mãos... Entenda isso, irmão.

A felicidade está na troca de olhares, nas gargalhadas que dão cãibra na boca e doem a barriga, na escapadinha da dieta, nas viagens, principalmente as sem destino nenhum... A felicidade está em ser pai ou mãe, em ter um animal de estimação, em ver, de perto, a inocência de uma criança. A felicidade está em presenciar e fazer uma boa ação. A felicidade está em dirigir o carro e sentir a brisa roçar a nuca, está nos abraços, mordidas e beijos roubados ou não, está no carinho demasiado, na mão boba, no amor sem pudor. Ela está nas coisas mais simples, ela está o tempo inteiro com você, parceiro. Basta você querer enxergar e deixar que ela te acompanhe durante a vida, como uma boa e velha amiga.

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Devaneios da mente
terça-feira, 3 de setembro de 2013 // 17:44

Algumas pessoas têm devaneios sobre seu passado, infância, lembranças, outras devaneiam sobre dinheiro, mulheres ou homens, príncipes ou até mesmo sobre o que farão no final de semana. 

Hoje meu devaneio foi sobre o trabalho, apressado, estressado... Se não fosse assim, não seria eu mesmo. Mas, enfim, o pessoal do escritório me passou que o botijão de gás foi furtado e que não daria pra fazer o café. Que raiva, viu!!!! Contudo, sem perder a pose, dei um leve sorriso como se nada tivesse acontecido. Alguns murmuraram: "Putz, ele foi furtado e ainda dá risada???". - Mas a minha risada era irônica, pois, tínhamos um micro-ondas e eu me dirigi até a cozinha, fervi a água e chamei a responsável pelo café para coá-lo. Outra exclamação: "Nossa!!!!, nem tinha pensado nisso!". - Nesse momento veio à minha mente o personagem da rádio, sabe? Aquele. Um tal de Dr. Pimpolho e pensei em mandá-la se fu..... 

Bom, já me deixei devanear por demais a respeito do queria falar desde o ínicio do texto, deixa voltar para o ponto central. Acontece que a moça deixou a água esfriar e dez minutos depois ela me chamou: "Ô Zé, o microondas não quer funcionar!". Cacete, pensei. Lá vou eu bravo e com pressa. Tirei o fio da tomada, olhei o fusível, olhei o disjuntor, dei dois tapinhas no aparelho e nada resolveu. Daí, num momento de fuga do meu consciente, tirei a chave do meu carro do bolso, apontei para o micro e tentei ligá-lo com o controle remoto. Rapidamente me dei conta do que fiz, olhei para os lados, certifiquei-me de que ninguém havia visto nada, daí resolvi sentar-me e escrever essas linhas para me acalmar um pouco. Mas chega, pois já estou atrasado, clientes para visitar... Tchau.


José Roberto Lopes, conhecido como Zé. Advogado, contador e - quem diria - escritor nas horas vagas, beeem vagas. Pai de quatro meninas (haja fôlego pra aguentar os bundões dos namorados) e um marido esforçado, daqueles que lavam, passam e cozinham. Gosta de histórias, tem sede pelo conhecimento, é demasiadamente observador, faz doce de banana e o melhor pão com mortadela de todos os tempos! Assim como os filmes que gosta de assistir, Zé gosta do imprevisível, do chocante, do único... e das boas e velhas piadas, claro.

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Malas prontas
quarta-feira, 21 de agosto de 2013 // 18:20


A campainha tocou. Era você. Quem diria, vai ser difícil me acostumar... 

Ontem mesmo você chegou sem precisar se anunciar antes, abriu a porta com sua chave, colocou suas pastas em cima da mesa, afrouxou a gravata e sorriu pra mim. Você caminhou até a cozinha, abriu a geladeira e ficou observando tudo por um tempo, e eu, quietinha, prestando atenção, achando graça naquilo... até porque eu sei que quando você faz isso é porque está pensando em alguma coisa. E admito que por muitas vezes eu quis saber, mais que qualquer outra coisa, o que se passava por sua cabeça nessas horas... Mas isso era como tentar decifrar um mapa ilegível, então eu preferia só assistir enquanto você refletia sobre tudo - e talvez numa dessas vezes, inclusive ontem mesmo, você tenha tomado a decisão que tomou.
 
Você apertou minha mão pra me cumprimentar e forçou um sorriso. Eu não me lembro de ter apertado sua mão antes, mesmo quando nos conhecemos... E ali estávamos nós, agindo como se fôssemos dois desconhecidos, forçados a manter o bom senso, totalmente constrangidos. Se eu mesma estivesse assistindo a uma cena parecida como essa, não diria nunca que tenha existido alguma coisa entre o casal. Porque essa é a verdade, nós parecíamos dois estranhos. E eu percebi que nada seria como antes quando você me pediu licença para entrar... De início eu sorri como se estivesse ouvindo alguma daquelas suas brincadeiras sem sentido, mas me obriguei a parar na mesma hora que vi sua expressão sisuda.

Você entrou, não ficou a vontade como costumava ficar. Parecia que tomava um cuidado exagerado pra não encostar em nada ou até mesmo pra não pisar muito forte. Foi estranho ter que guiá-lo até o quarto, sendo que você sabia perfeitamente o caminho, até mesmo quando estava de olhos vendados... Mas é claro que você não deve ter pensado nisso, afinal, por que lembranças das nossas brincadeiras fariam alguma diferença, ali, naquele momento?

Você pegou duas malas e colocou sobre a cama, depois começou a depositar suas camisas, calças, meias... Fiquei assistindo a tudo sem oferecer ajuda e me perguntei se você estava irritado por isso. Não era má vontade, eu só não quis fazer parte de algo que eu nunca pensei que um dia fosse acontecer, de algo que, na verdade, eu sempre lutei pra não acontecer. E, por mais bizarro que possa parecer, enquanto você ajeitava tudo pra partir e me deixar, eu ainda conseguia achar cada gesto seu, cada movimento e expressão a coisa mais hipnótica e extasiante do mundo. Ali, naquele instante, eu soube que nunca cansaria de observar você se pudesse. Nunca mesmo.

E tudo estava pronto... ou mais ou menos pronto. Você guardou todas as coisas que considerou importante, e é claro que isso não incluía os porta-retratos com as fotos de diversos momentos felizes que vivemos nem mesmo as lembrancinhas de viagens marcantes que fizemos. Você deixava pra trás vestígios de uma vida da qual eu sempre imaginei ao seu lado e, sem nem mesmo saber, tornava tudo mais difícil e torturante pra mim. Conviver com seus fantasmas não seria fácil, e eu não queria me permitir pensar nisso... não por enquanto.

Você arrastou as malas pela casa, seguindo a direção da porta. Mas, antes de qualquer outra coisa, parou em frente à cozinha e perguntou se podia beber água, eu fiz que sim com a cabeça... Você abriu a geladeira e hesitou antes de pegar a garrafa. Eu sabia que você estava mais uma vez pensando, perdido nos seus devaneios constantes... Eu continuei sem saber o que se passava por sua sua cabeça, mas ali, pela primeira vez na vida, eu tive a certeza de que podia ser tudo, menos eu. Eu já não fazia mais parte dos seus pensamentos... Então você pegou suas malas e partiu.

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